terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Seja Você

  Acho a maior graça desse povo que reclama do meu jeito. Não é uma graça debochada, mas é graça.
  Ficam dizendo que pessoa boa é aquela que manda ficar bonzinho, perdoar, tomar paulada e ficar quieto. Que isto, sim, que é virtude!
  Pois eu sou eu mesma e só digo pras pessoas serem elas mesmas. Porque têm mania de ler um livro que diz tudo na base do "tu" e do "vós", que fala mansinho e saem por aí tentando copiar o que o livro disse. O ódio tá roendo por dentro, mas diz que ama todo mundo. Ensina os outros serem felizes na família, mas a própria família está podre. Manda perdoar Hitler, mas não esquece o sujeito que fez aquele arranhãozinho na pintura do carro novo.
  Pois eu acho mais é que as pessoas deviam assumir o que realmente são.
  - Olha, eu ainda não sou capaz de perdoar, mas vou fazer um esforço pra te entender, tá bão?
  A gente entende com a razão, mas só perdoa com o sentimento. Se o sentimento não dá pra perdoar, não adianta dizer que perdoa, por mais belo e nobre que pareça! Por mais racional que pareça!
  Agora, se é pra fazer tua vontade, a gente fala "tu", que a gente usar a segunda ou a terceira pessoa não altera o que está no coração.
  Tu acredita realmente que se eu falar mansinho, vai funcionar melhor! Quantos livros têm por ai, falando afabalidade, de boa-vontade, falando com toda aquela poesia!É bonito? É bonito! Que mais?
  - Ah, dá gosto ver um Português bem falado, umas palavras difíceis!
  E eu te pergunto: É isso que faz as pessoas modificarem? Ou elas param na boniteza, e não mudam nada, ficam só sonhando com a Vida Espiritual, onde tudo é tons pastel  e as pessoas costumam dizer dá licença e obrigado?
  Olha, sonhar não é ruim, mas quando faz a gente parar de ver e de fazer o que é preciso, acaba prejudicando.
  Tem gente que fica caidinha pra saber do lado de lá (que, no meu caso, é o de cá). A Vida Espiritual tem um lado escuro,sabia? E o teu lado de lá vai depender do que tu está fazendo agora. Já pensou chegar lá, alguém perguntar o que fez aqui, e tu dizer:
  - Li bastante Chico Xavier, Zíbia.
  - Tá bom, minha filha. E o que foi que isso resolveu? Está melhor do que quando foi pra lá?
  - Aprendi muita coisa.
  - Mas não viveu! Usou pros outros, não pra si.
  - Ah! Mas eu ajudei tanta gente...
  - Bom posso até considerar. Só que, enquanto se preocupava com os outros, fugia de melhorar você mesma. Chegava em casa, era a mesma casca-de-ferida de sempre! Pois, da próxima vez, vai voltar lá analfabeta, pra não perder tanto tempo lendo e fazer algo mais por você.
  Está vendo só, como não se pode desfazer dos analfabetos?
  Pois o que estou falando é pra você se botar nu na frente do espelho e se ver como é. O que você é, não é ruim nem bom pra você. Pode ser ruim ou bom pros outros, mas pra você, é só você! É o que fez na vida, o que você viveu, sentiu, quis.
  - Ai, não fala de nudez, que é impróprio.
  Imprópria é a safadeza desse povo, encondendo o que têm de pior com um monte de panos: o pano da cultura, o pano da aparência, o pano da fala difícil. E sabe o que as pessoas têm de pior. Jesus já falava: é a falsidade.
  - Mas desse jeito que você fala...e se os assassinos resolverem ser eles mesmos? Os crápulas? Onde a gente vai parar?
  Pois eu lhe digo que, quando as pessoas se olharem como são, quando não tiverem mais nada pra esconder de si mesmas, elas verão que no fundo delas existe luz, existe Deus, não existe motivo pra matar, roubar ou seja o que for.
  Eu podia contar o que os bandidos passam quando vêm pra cá, que é de arrepiar. Mas não acredito em ameaça. Acredito na luz e no Deus que cada ser tem dentro de si mesmo, esperando sair de cima toda aquela casca de cultura e neurose, de arrogância e vaidade, pra poder aparecer.

 (Trecho do livro Pensamentos que Resolvem de Rita Foelker)

Nenhum comentário:

Postar um comentário